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UMA CARTA PARA MEU BEBÊ, DA SUA MÃE COM DEPRESSÃO PÓS-PARTO

by • março 2, 2015 • Mulher, Pós-parto, SaúdeComments (0)14617

Querido bebê,

Me perdoe.

Me perdoe por eu não ser a mãe que eu gostaria de ser pra você. Isto nunca foi o que eu imaginei: essa tristeza consumidora, essa raiva, essa falta de esperança que acinzenta os meus dias. Eu queria ser engraçada pra você. Eu queria cantar musiquinhas idiotas enquanto a gente desenha. Eu queria sair correndo atrás de você pelo parque; Queria comer sorvete no almoço. Eu queria gastar uma tarde toda revirando aquela minha sacola cheia de coisas que guardei da “nossa” gravidez e finalmente montar aquele nosso scrapbook.

Mas ao invés disso, alguns dias, eu luto pra sair da cama. Perambulo pelo seu café da manhã; E ligo a televisão de novo. Não consigo cantar uma canção. Meu corpo dói demais pra sair correndo atrás de você, e quando meu corpo não dói, meu coração assume essa função. Me arrasto até a tarde, cansada demais para fazer scrapbook. Tudo é cinza, me sinto aprisionada, sufocada. Eu nunca quis isto pra gente. Isto não é o que eu queria pra você.

Eles chamam isso de depressão pós-parto. É um “truque” que hormônios e substâncias químicas fazem, causando uma perda de conexão e mau funcionamento de neurônios. Eu simplesmente me esqueci como ser feliz. Agora, felicidade é como um sonho em que eu me lembro, mais ou menos, de ter acordado. Em alguns dias até parece estar mais perto de mim, mas permanece, sempre, longe.

Essa profunda tristeza que eu sinto não é por causa de você. É apesar de você, e isso é, talvez, a parte mais terrível. Eu estou inabalavelmente, indivizivelmente, triste em meio ao milagre que você é na minha vida. Eu cochilo quando deveria sorrir. Desisto quando deveria alcançar. Eu me obrigo a abraçar você, porque a minha tristeza me faz esquecer disso. E esse esquecimento, me faz ainda mais triste.

Eu não estou feliz. Mas estar infeliz não significa que estou infeliz com você. Até mesmo nos nossos momentos mais dificeis, aqueles em que eu grito com você por estar estressada e acabada, estou feliz com você. Eu te amo, mesmo nos seus momentos de birra intermináveis. Eu te amo quando você joga farinha de trigo pela cozinha toda, te amo quando você pinta o cachorro, te amo quando você me acorda durante a noite, de novo, de novo, e de novo. Eu amo você, bem no meio da minha dor.

Amo você mesmo na escuridão, meu bebê. Em alguns dias eu não sinto amor, mas um espaço vazio, e ajo conforme a dança de qualquer maneira. Tento frustradamente me confortar: o amor é uma ação, não um sentimento. E rezo para que minhas ações sejam suficientes pra você.

Não existe lógica na depressão. Não existe razão; não existe explicação, a não ser uma pegadinha da química, e nenhuma cura fácil. Não pedi este vazio. Essa cor cinza que me suga – todo mundo diz para que eu curta cada momento seu. Mas como posso curtir o que não posso ver? Como posso saborear esses momentos, com falta de ar?

Essas pessoas entusiasmadas com um novo bebê não conseguem ver o cinza sufocante ao meu redor. Eles têm boas intenções, verdade. Mas a invisibilidade da depressão faz parte desse inferno especial: você pode ver uma mulher se afogando, de longe, e mesmo assim achar que ela está nadando, feliz da vida, sob o entardecer. E se ela ousar pedir por um colete salva-vidas, é provável que as pessoas não ajudem. Elas dirão que a culpa é dela mesma. Dirão que ela está exagerando, que perdeu o controle sobre seus hormônios. E o maior medo: que o mundo confunda depressão com rejeição. Que se eu realmente amasse meu bebê – eles dirão – eu estaria feliz.

Não preciso que outras pessoas me digam estas coisas. Ouço elas todos os dias, na voz macabra da própria depressão.

Essa doença roubou de nós dois, meu amor. Tempo roubado; sentimentos roubados, momentos fazendo scrapbook roubados. Mas a maior crueldade da depressão também é sua maior fraqueza: ela pode lhe roubar várias coisas, mas nunca vai levá-la.

E não importa quão escuro esteja, tenho você pra cuidar. Posso me sentir vazia, mas tenho que garantir que você se sinta amado. Meus braços parecem pesados, mas colocarei-os envolta do seu corpo. Estou exausta, mas pegarei você no colo. Beijo você apesar da minha dor. Você é minha força, meu amor. Quero o melhor pra você. E o melhor é a sua mamãe, não importa o quão acabada ela esteja. E essa mamãe, sou eu.

Tenho você. Continuo. E no final, isso deve ser o bastante para nós dois.

Créditos: Scary Mommy.

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